Doença de Creutzfeldt-Jakob: Características e Análise de Casos Clínicos entre 2006-2026 no Cenário Nacional e Internacional
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FICHA TÉCNICA:
Tipo de documento: Artigo Científico
Quantidade de páginas: 52
Quantidade de referências bibliográficas utilizadas: 70
Títulos / Subtítulos do Artigo: Introdução; Doença de Creutzfeldt-Jakob: Estado da Arte (2006-2026); Fundamentos da Doença de Creutzfeldt-Jakob: Categorias, Diagnóstico e Sintomas; Tratamento, Características Epidemiológicas e Expectativa de Vida; Metodologia; Ensaios Clínicos Experimentais em Andamento para Redução da Proteína Príon; Considerações Finais; Referências
Data de publicação: 24 de agosto de 2026
Local de publicação: Blog Pesquisador Científico
Área/tema: Medicina (Neurologia/Doenças Priônicas)
Metodologia de pesquisa: Revisão bibliográfica narrativa
Idioma: Português (com título, resumo e palavras-chave também em inglês)
Autor: Mario Vittoria Filho
RESUMO
A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma enfermidade priônica neurodegenerativa rara, invariavelmente fatal, cujo diagnóstico em vida permaneceu um desafio clínico relevante até a consolidação de biomarcadores como o Real-Time Quaking-Induced Conversion (RT-QuIC) ao longo da última década. A partir deste contexto, o problema de pesquisa é apresentado a seguir: quais foram os principais avanços do conhecimento científico sobre a DCJ entre 2006 e 2026, e o que a análise dos casos clínicos publicados na literatura revela sobre a relação entre a abordagem terapêutica empregada e a sobrevida dos pacientes? A pesquisa foi organizada em três eixos principais: mapeamento do estado da arte da pesquisa científica nacional e internacional sobre a DCJ; apresentação da classificação etiológica, do diagnóstico, das manifestações clínicas, do tratamento e das características epidemiológicas da doença; análise de casos clínicos nacionais e internacionais publicados quanto à sobrevida observada e à abordagem terapêutica documentada. O objetivo geral é averiguar a evolução do conhecimento científico sobre a DCJ nas últimas duas décadas e identificar possíveis relações entre o modelo de cuidado adotado e a sobrevida dos pacientes documentados na literatura. Nesta pesquisa, foram definidos três objetivos específicos: a) Verificar o panorama internacional e nacional da vigilância epidemiológica e do diagnóstico da DCJ entre 2006 e 2026; b) Explorar os fundamentos etiológicos, diagnósticos, clínicos, terapêuticos e epidemiológicos da doença; c) Analisar os casos clínicos publicados no Brasil e em outros países quanto à duração da doença e à intervenção documentada. Com o objetivo de conduzir este estudo, foi adotada a revisão bibliográfica narrativa. Essa metodologia é alinhada à pesquisa qualitativa e se caracteriza como uma investigação exploratória. Os resultados desta pesquisa indicam que o avanço mais relevante do período foi a consolidação do RT-QuIC como biomarcador diagnóstico, ao passo que nenhum tratamento farmacológico curativo foi estabelecido; a comparação entre os casos de sobrevida prolongada e de sobrevida curta sugere associação entre a continuidade do suporte multiprofissional paliativo e o prolongamento da sobrevida, independentemente de qualquer fármaco específico. Concluiu-se que a DCJ permanece uma condição de diagnóstico cada vez mais preciso, porém de prognóstico invariavelmente fatal, e que a associação observada entre continuidade do cuidado e sobrevida constitui uma hipótese a ser aprofundada por estudos prospectivos futuros.
Palavras-chave: Cuidados Paliativos. Doença de Creutzfeldt-Jakob. Doenças Priônicas. Manifestações Clínicas. Neurodegeneração.
CREUTZFELDT-JAKOB DISEASE: CHARACTERISTICS AND ANALYSIS OF CLINICAL CASES (2006–2026) IN THE NATIONAL AND INTERNATIONAL CONTEXT
ABSTRACT
Creutzfeldt-Jakob disease (CJD) is a rare, invariably fatal neurodegenerative prion disease; diagnosing it in living patients remained a significant clinical challenge until the establishment of biomarkers such as Real-Time Quaking-Induced Conversion (RT-QuIC) over the last decade. Against this backdrop, the research problem is presented as follows: what were the key advances in scientific knowledge regarding CJD between 2006 and 2026, and what does an analysis of clinical cases published in the literature reveal about the relationship between the therapeutic approach employed and patient survival? The research was organized around three main axes: mapping the state of the art of national and international scientific research on CJD; presenting the disease’s etiological classification, diagnosis, clinical manifestations, treatment, and epidemiological characteristics; and analyzing published national and international clinical cases regarding observed survival and documented therapeutic approaches. The general objective is to examine the evolution of scientific knowledge on CJD over the last two decades and to identify potential relationships between the model of care adopted and the survival of patients documented in the literature. Three specific objectives were defined for this research: a) To assess the international and national landscape of CJD epidemiological surveillance and diagnosis between 2006 and 2026; b) To explore the etiological, diagnostic, clinical, therapeutic, and epidemiological foundations of the disease; c) To analyze clinical cases published in Brazil and other countries regarding disease duration and documented interventions. A narrative literature review was adopted to conduct this study. This methodology aligns with qualitative research and is characterized as an exploratory investigation. The results of this research indicate that the most significant advance during this period was the establishment of RT-QuIC as a diagnostic biomarker, whereas no curative pharmacological treatment has been established; The comparison between cases of prolonged and short survival suggests an association between the continuity of multidisciplinary palliative support and prolonged survival, independent of any specific medication. It was concluded that CJD remains a condition with an increasingly precise diagnosis but an invariably fatal prognosis, and that the observed association between continuity of care and survival constitutes a hypothesis to be further explored in future prospective studies.
Keywords: Clinical Manifestations. Creutzfeldt-Jakob Disease. Neurodegeneration. Palliative Care. Prion Diseases.
1 Introdução
A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma enfermidade priônica neurodegenerativa rara e invariavelmente fatal, cujo diagnóstico em vida representou, por décadas, um desafio clínico relevante. Este estudo foi elaborado a partir de fontes científicas nacionais e internacionais, e está organizado em quatro blocos: a) Estado da arte sobre DCJ entre 2006 e 2026; b) Categorias, diagnóstico e sintomas da doença; c) Panorama sobre tratamento, características epidemiológicas e expectativa de vida por forma etiológica; d) Análise dos resultados e discussão comparativa entre casos clínicos publicados no Brasil e em outros países, com ênfase na relação entre a abordagem terapêutica documentada e a sobrevida observada.
A relevância desta pesquisa decorre da raridade e da gravidade da DCJ, que, apesar de acometer um número reduzido de indivíduos, apresenta desfecho invariavelmente fatal e impõe desafios diagnósticos e terapêuticos significativos aos profissionais de saúde. A consolidação de biomarcadores como o RT-QuIC ao longo da última década ampliou a capacidade diagnóstica em vida do paciente, mas a ausência de um tratamento curativo mantém a doença como uma condição de manejo essencialmente paliativo.
A compreensão dos avanços do conhecimento científico produzido nas últimas duas décadas, bem como examinar o que os casos clínicos publicados revelam sobre a relação entre a abordagem terapêutica adotada e a sobrevida dos pacientes, é relevante para a prática clínica, bem como para a orientação de pacientes e familiares diante de um diagnóstico de prognóstico reservado. A partir deste contexto, o problema de pesquisa é apresentado a seguir: quais foram os principais avanços do conhecimento científico sobre a DCJ entre 2006 e 2026, e o que a análise dos casos clínicos publicados na literatura revela sobre a relação entre a abordagem terapêutica empregada e a sobrevida dos pacientes?
O objetivo geral é averiguar a evolução do conhecimento científico sobre a DCJ nas últimas duas décadas e identificar possíveis relações entre o modelo de cuidado adotado e a sobrevida dos pacientes documentados na literatura. Neste estudo, foram definidos três objetivos específicos: a) Verificar o panorama internacional e nacional da vigilância epidemiológica e do diagnóstico da DCJ entre 2006 e 2026; b) Explorar os fundamentos etiológicos, diagnósticos, clínicos, terapêuticos e epidemiológicos da doença; c) Analisar os casos clínicos publicados no Brasil e em outros países quanto à duração da doença e à intervenção documentada. Com o objetivo de conduzir esta pesquisa, foi adotada a revisão bibliográfica narrativa. Essa metodologia é alinhada à pesquisa qualitativa e se caracteriza como uma investigação exploratória.
2 Doença de Creutzfeldt-Jakob: Estado da Arte (2006–2026)
A presente seção reúne o quadro consolidado da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), ao lado das pesquisas nacionais e internacionais de maior relevância publicados no intervalo de 2006 a 2026. O objetivo consiste em posicionar o público leitor diante do momento presente do saber científico a respeito da doença, com ênfase nos progressos observados em vigilância epidemiológica, diagnóstico, biomarcadores e nas tentativas de tratamento experimental no transcurso das duas últimas décadas.
2.1 Panorama Internacional
O monitoramento em escala internacional voltada à DCJ passou a figurar, no transcurso das duas últimas décadas, entre as prioridades da saúde pública em escala global. Um levantamento sistemático publicado no periódico Lancet Infectious Diseases examinou indicadores referentes a incidência, prevalência, infectividade e tempo de incubação da enfermidade no intervalo de 1993 a 2018, com estimativa de prevalência mundial próxima de 1,5 caso a cada milhão de habitantes e aproximadamente 5.000 casos novos por ano ao redor do planeta (Uttley et al., 2020). De modo complementar, um artigo de revisão publicado na Nature Reviews Neurology destacou a necessidade de manter sistemas internacionais de monitoramento epidemiológica ativas, ao defender que, mesmo com a redução da variante, as enfermidades priônicas permanecem como risco à saúde coletiva em razão do possibilidade teórica de contágio por via iatrogênica apontado por pesquisas sobre distribuição nos tecidos conduzidos por meio de testes de elevada sensibilidade (Watson et al., 2021).
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) confirma, em material técnico atualizado em janeiro de 2026, que a incidência anual estimada da DCJ permanece próxima de 1 a 2 casos por milhão de habitantes na maior parte dos países que mantêm sistemas de vigilância ativos, e que o risco de desenvolvimento da enfermidade aumenta conforme a idade avança, ainda que o risco absoluto permaneça baixo mesmo entre os grupos etários mais avançados (CDC, 2026).
Na França, uma monitoramento prospectivo mantida por 25 anos (1992–2016) revelou redução gradual das manifestações epidêmicas da enfermidade, acompanhada de elevação no registro de casos esporádicos, achado atribuído a uma capacidade diagnóstica crescente no transcorrer do período (Denouel et al., 2023). Tendência análoga de aprimoramento diagnóstico, e para além do crescimento efetivo da incidência, foi discutida por um levantamento sistemático de 2024 dedicada à forma esporádica da DCJ, segundo a qual o aumento aparente na quantidade de notificações decorre principalmente da evolução dos recursos diagnósticos existentes (Jurcau et al., 2024).
Denouel et al. (2023) detalham, no mesmo levantamento francês já mencionado, que dos 2.907 casos confirmados como doença priônica entre 25.676 notificações suspeitas recebidas ao longo dos 25 anos de vigilância, 2.510 corresponderam à forma esporádica, o equivalente a 86% do total, 240 à forma genética e 157 a formas infecciosas, distribuição que evidencia o declínio consistente das formas de transmissão iatrogênica e variante observado no país ao longo do período estudado (Denouel et al., 2023).
Rasheed et al. (2024) quantificaram, na Ásia, os casos notificados no período de 1986 a 2023, com destaque para o Japão e a China como os países com maior número de registros da forma esporádica, com 1.705 e 1.957 casos, respectivamente, além de identificar o sub-registro como questão relevante em nações do Sudeste Asiático. Levantamentos nacionais adicionais confirmaram esse quadro. A Coreia do Sul reuniu informações de incidência no período de 2001 a 2019 (Kim; Jeong, 2022). Taiwan, por seu turno, manteve um levantamento prospectivo de monitoramento nacional por 20 anos, de 1998 a 2017 (Sun et al., 2020). No Irã, um levantamento sistemático de relatos de caso publicado em 2024 reuniu a produção médica iraniana sobre a enfermidade desde 1995, o que evidencia a competência diagnóstica crescente do país (Mohebbi et al., 2024). O Quadro 1 sintetiza os principais sistemas nacionais de vigilância epidemiológica da DCJ discutidos nesta subseção.
Quadro 1 – Sistemas nacionais de vigilância epidemiológica da DCJ em países asiáticos selecionados.
| País/Região | Período de vigilância | Principais achados |
| Japão e China (Ásia) | 1986–2023 | Japão: 1.705 casos da forma esporádica notificados; China: 1.957 casos. Japão concentrou 82 dos 85 casos regionais da forma iatrogênica, associados a programas históricos de hormônio de crescimento cadavérico. |
| Coreia do Sul | 2001–2019 | Levantamento nacional de incidência da DCJ ao longo de duas décadas, com base em dados oficiais de vigilância epidemiológica. |
| Taiwan | 1998–2017 | Monitoramento prospectivo nacional de 20 anos sobre incidência e mortalidade por doenças priônicas humanas. |
Fonte: Elaborado pelo autor, com base em Rasheed et al. (2024), Kim e Jeong (2022) e Sun et al. (2020).
Rasheed et al. (2024) detalham ainda, no mesmo levantamento sobre a Ásia já mencionado, que os casos da forma iatrogênica identificados no continente concentraram-se majoritariamente no Japão, com 82 dos 85 registros totais localizados nesse país, achado que os autores associam à magnitude histórica dos programas de tratamento com hormônio do crescimento de origem cadavérica conduzidos naquele território, em contraste com o reduzido número de casos iatrogênicos identificados na Índia (Rasheed et al., 2024).
Do ponto de vista diagnóstico, o marco mais relevante da última década foi a publicação, na revista The Lancet Neurology, de diretrizes atualizadas de biomarcadores para o diagnóstico da DCJ esporádica, que consolidou o exame de Real-Time Quaking-Induced Conversion (RT-QuIC) como progresso decisivo para um diagnóstico seguro ainda em vida do paciente, além das restrições dos critérios convencionais apoiados apenas em quadro clínico, eletroencefalograma (EEG) e proteína 14-3-3 no líquido cefalorraquidiano (Hermann et al., 2021). A validação desses critérios amendados já havia sido demonstrada anteriormente em estudo publicado na revista Neurology, que atribuiu ao RT-QuIC sensibilidade de 97% e especificidade de 99% para o diagnóstico de DCJ esporádica provável (Hermann et al., 2018). Estudos de validação subsequentes testaram o desempenho desses biomarcadores em coortes locais. Na Austrália, Senesi et al. (2023) confirmaram sua utilidade clínica. No Japão, esse mesmo padrão recebeu confirmação pelo Comitê Japonês de Vigilância de Doenças Priônicas (Japanese Prion Disease Surveillance Committee, 2024).
No campo terapêutico, o avanço de maior impacto dos últimos vinte anos correspondeu à publicação, em 2022, dos resultados de um programa pioneiro de tratamento experimental com o anticorpo monoclonal PRN100, conduzido pela Unidade de Príons do Medical Research Council, no University College London. O estudo, publicado na The Lancet Neurology, demonstrou segurança do anticorpo e capacidade de alcançar o encéfalo, com eventual estabilização do avanço da enfermidade em três dos seis pacientes tratados, quando as concentrações permaneciam dentro da faixa-alvo pretendida, ainda que sem ganho estatisticamente significativo de sobrevida frente a controles históricos (Mead et al., 2022). Mais recentemente, o medicamento experimental ION717, um oligonucleotídeo antisense direcionado ao RNA mensageiro da proteína priônica e desenvolvido pela empresa Ionis Pharmaceuticals, avançou para ensaios clínicos de Fase III, e constitui a fronteira mais recente da pesquisa terapêutica em doenças priônicas humanas, segundo informa a CJD Support Group Network Australia (CJD Support Group Network Australia, 2026).
2.2 Panorama Nacional
No Brasil, a produção científica sobre a DCJ nas últimas duas décadas concentrou-se majoritariamente em relatos de caso, séries de casos e, mais recentemente, em estudos de vigilância epidemiológica de base nacional. Uma revisão sistemática sobre o perfil da doença no país, conduzida com base nas plataformas PubMed e SciELO segundo as diretrizes PRISMA, apontou a escassez histórica de dados epidemiológicos brasileiros específicos sobre a DCJ, apesar de sua inclusão na lista de doenças de notificação compulsória do Ministério da Saúde desde 2005 (Ferreira et al., 2024).
Um marco relevante da vigilância nacional foi a publicação, pelo Ministério da Saúde, do perfil epidemiológico dos casos de DCJ notificados no Brasil entre 2005 e 2021, documento que identificou 1.576 notificações de casos suspeitos no período, com maior concentração nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, e nos estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais (Brasil, 2022). Em estudo mais recente, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás analisaram a evolução temporal e a distribuição espacial da mortalidade por DCJ no Brasil entre 1996 e 2024, com base em dados da Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde, o que amplia a janela histórica de análise epidemiológica nacional (Fontana, 2026).
De forma paralela aos levantamentos de monitoramento, a produção médica brasileira reuniu, no transcurso das duas últimas décadas, um volume crescente de relatos de caso publicados em periódicos como Arquivos de Neuro-Psiquiatria, Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Dementia & Neuropsychologia, The Brazilian Journal of Infectious Diseases e Brazilian Journal of Health Review, entre outros, os quais serão examinados com maior detalhamento na seção 4 desta pesquisa. Tais relatos, ainda que limitados individualmente quanto ao número de pacientes envolvidos, permitem, ao serem reunidos, compor quadro consistente das manifestações clínicas e dos obstáculos diagnósticos da enfermidade em contexto nacional. Azevedo et al. (2001) descreveram caso com acometimento medular raro. Carneiro et al. (2022) reforçam esse quadro ao relatar três casos adicionais da forma esporádica. Cardoso et al. (2023) seguem a mesma linha, com o registro de outros três casos confirmados no norte mineiro.
A comparação entre os quadros internacional e nacional evidencia um descompasso estrutural. Países com décadas de vigilância consolidada produzem séries históricas extensas e biomarcadores validados em múltiplas coortes, ao passo que o Brasil ainda depende majoritariamente de relatos de caso isolados para compor seu retrato epidemiológico. Essa assimetria decorre, em grande medida, de uma limitação na capacidade de detecção e notificação sistemática do país, fator que se sobrepõe à real incidência da doença em solo brasileiro. O amadurecimento recente de estudos nacionais sugere, contudo, uma trajetória de aproximação gradual entre os dois contextos, ainda distante da consolidação observada em sistemas de vigilância mais antigos. A Figura 1 ilustra, de forma cronológica, os principais marcos científicos que sustentam esse amadurecimento diagnóstico e terapêutico ao longo do período estudado.
Figura 1 – Linha do tempo de marcos científicos sobre a DCJ (2009-2024).

Fonte: Elaborado pelo autor, com base em Zerr et al. (2009), Hermann et al. (2021), Mead et al. (2022) e Zerr et al. (2024).
O quadro consolidado da investigação científica acerca da DCJ nas duas últimas décadas, tanto em contexto internacional quanto nacional, revela um percurso de amadurecimento diagnóstico expressivo, impulsionada pela disseminação do RT-QuIC e de outros biomarcadores, em contraste com a persistente ausência de terapia curativa eficiente. Tal vazio terapêutico, somada à baixa frequência da enfermidade, preserva a DCJ como condição de diagnóstico desafiador e prognóstico invariavelmente fatal, como destacam Hall e Masood (2025). Noor et al. (2024) confirmam essa constatação, ao descrever padrão semelhante em seu levantamento sobre o estado presente do saber científico a respeito da enfermidade.
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